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Enxurrada de 2008: De dez anos para cá…

Eram os primeiros dias de dezembro de 2008 quando eu ainda limpava enfestos na talharia da Tauos, nas esquinas da Emílio Tallmann, no Progresso. Ainda sonhando com rádio, jornalismo e futuro, ouvia as palavras de Marcos Roberto Jana perguntando na sua mensagem na Rádio Menina, com tons de esperança vencendo a tristeza: “e agora, Blumenau?”

Impossível era omitir-se fazer esta pergunta diante do que você via com seus olhos naqueles dias pós-cataclismo. Pontes destruidas, lama, barreiras ainda caindo, notícias pesadas por todos os lados, tristeza de uns e a revolta de outros que perderam bens, familiares, perderam o brilho de um natal que avizinhava-se naqueles dias.

Todos a quem você interpela por estas bandas, amigos e parentes, tem uma história relacionada à aqueles dias 22 e 23 de novembro de 2008. É a consequencia vinda das marcas dos grandes eventos que afetam, direta ou indiretamente, uma comunidade e que, para o bem ou para o mal, ficam gravados na lembrança em todos os seus detalhes. E como o primeiro beijo, o gol na final de uma partida ou a formatura, a tragédia coletiva também tem sua história e, claro, suas lições.

Aquele novembro foi o ápice da água vinda do céu. A chuva simplesmente não escolhia hora para cair e desabava, e todo blumenauense que se preze já podia prever a consequencia maior de um período de fortes chuvas: a enchente. Era questão de tempo e ela já se avizinhava, para alerta de quem estava no caminho do rio. Quem morava nas áreas baixas começava o ritual: sobe móveis, carros em lugares altos, abrigo nos amigos, o que já estava no manual da cidade desde sua fundação.

Mas a tormenta resolveu vir de outro lugar. Em um piscar de olhos, o Vale parecia derreter-se em lama, galhos e barro em todas as direções, levando o amor de famílias, patrimônios, paisagens e outros tantos. No sábado (22), viviamos o prelúdio para desembocar naquele domingo, 23 de Novembro, tentando fechar os olhos e adormecer para acreditar que tudo aquilo era só um nefasto pesadelo.

Onde eu morava, no Progresso, vimos e vivemos coisas que jamais imaginariamos viver. Eram cenas que remetiam a filmes hollywoodianos com roteiros fantásticos e um cenário desolador. As pessoas caminhavam pelas ruas e, enquanto procuravam o rumo para algum lugar, encontravam conhecidos há muito não vistos. Toda a sorte em motoqueiros cruzavam as ruas brincando com a lama e tudo isso diante da varanda do 2405 da Rua Progresso, onde eu, atento e impressioado, observava a tudo isto.

Por todo o lado de Blumenau podiamos observar atônitos o que o prefeito Dalto dos Reis tachou como “pior que 1983” nos jornais daqueles dias que chegavam com atraso nas casas. Os veículos sumiram, os helicópteros viraram uma constante e até a simples volta da energia elétrica foi festejada como um gol em final de Copa: com vibração e extasio.

As mortes vieram, os estragos multiplicaram-se e eu, admitindo abusar da minha cruel curiosidade, passei por várias ruas do entorno registrando cenas que desejava piamente que não se repetissem. O cemitério violado, as barreiras que engoliam estradas, as pessoas andando para algum lugar ou lugar nenhum. Cenário desolador, tétrico, assustador, confuso.

No entanto, parafraseando Margaret Thatcher, “the life must go on”. A vida tem que seguir, mesmo que ela pareça dolorida para tira-la da posição de joelhos em que ela ficara. Quem tinha pás botou-se ao trabalho, quem tinha a “mão amiga” a estendeu de todas as formas possíveis e, mesmo relutantes, a velha Blumenau e suas vizinhas se colocaram num recomeçar bem diferente de idos como os de 1983 ou 1990. Era necessária uma dose cavalar de solidariedade, de autruismo, de espirito natalino que limpa os enfeites e piscas e busca no brilho da época a inspiração para refazer os dias.

Ainda tem quem os refaça desde 2008, quem ainda sente a dor e a revolta mas que segue em frente com a força de quem mora no Vale e não se baixa à tragédia. Lições foram aprendidas e erros – infelizmente – continuam sendo repetidos, mas é preciso seguir, pensar adiante sem deixar de recordar para, novamente, assimilar aprendizados e reverenciar heróis. O que vimos, vivemos e fizemos ficará sempre preservado em nossas histórias particulares, imortais e inesquecíveis.

E quanto o que perguntou Marcos Jana: “e agora, Blumenau?” Agora, a gente pega as pás e guarda-as num lugar a mão, deixa a solidariedade a póstos para mais um natal e olha para o sol que, ironicamente, brilha entre nuvens nestes dias 22 e 23 de novembro dez anos depois. O pior passou, ou ainda passa, mas que da lama fique a lição, as reverencias, as cobranças e a certeza: ainda continuamos mais persistentes do que nunca.

The life must go on…

Artigo por: André Bonomini / A Boina

A coluna A BOINA é produzida pelo jornalista André Bonomini do blog A BOINA que sempre vai trazer histórias, curiosidades, automobilismo, artes, musicas e muito mais para você leitor do NW Blumenau. 

Fotografias: André Bonomini

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