Por que tantos acidentes e mortes praticamente no mesmo local na rua Amazonas?

Desde o primeiro dia de 2017 até o domingo, 26 de novembro, foram registradas 4 mortes na rua Amazonas. Todas esse ano. Todas envolvendo motos. Todas no mesmo trecho, a metros do mesmo local. No dia 27 de agosto foi o Gledson, 32 anos, motociclista que se envolveu em colisão com mais 2 carros. No dia 10 de setembro foi o Ivens, 25 anos, motociclista, se envolveu em acidente com mais 2 carros. No dia 29 de outubro foi o Sr. Wilson, 60 anos, o “seu” Mirelo, pedestre que morreu atropelado por uma moto a metros do mesmo local.  No óbito de domingo foi um rapaz de 20 anos, no auge da vida como cidadão e como motorista. Se a imprudência, o excesso de velocidade, a distração e outras variáveis que concorrem para os acidentes de trânsito estão por todas as ruas da cidade, o que há naquele trecho da rua Amazonas que faz potencializar os acidentes de trânsito graves e as mortes?  O que está faltando para se fazer um estudo técnico e crítico da acidentalidade naquele local?  De antemão, já adianto: só o secador de cabelo em alguns horários da semana não vai resolver o problema. Algumas dessas mortes foram à noite e em finais de semana, quando o secador de cabelo descansa das atividades do dia.

(Foto: Edemilson Daros / Divulgação)
Há fatores indispensáveis que precisam ser considerados: cerca de 75% dos acidentes no país são provocados com tempo bom e seco; não é com chuva. Cerca de 67% dos acidentes são provocados nas retas, em estradas bem conservadas, sem buracos e com boa sinalização; 61% dos acidentes são provocados durante o dia; 90% estão associados a falhas humanas, seja de quem dirige, seja de quem deveria sinalizar e não sinalizou, e por aí vai. Cerca de 56% das causas de acidentes de trânsito são associadas aos erros humanos em combinação com os problemas das vias. Outros 42% são causas relacionadas aos erros humanos combinados com os problemas dos veículos. Os dados são da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (ABRAMET) e da Scaringela Trânsito & Consultoria, de São Paulo, e foram apresentados este ano no Congresso Latino Americano de Trânsito e Mobilidade.

Entra ano e sai ano a rua Amazonas continua se revezando com as ruas 7 de Setembro, Bahia, São Paulo e 2 de Setembro como as que registram mais acidentes. Até o dia 26 de novembro estava na terceira posição com 217 acidentes, somente atrás da 7 de Setembro com 238 e da rua Bahia, com 229 ocorrências atendidas pela Guarda Municipal de Trânsito. 

Um ponto negro segundo a Acidentologia

A Acidentologia é uma ciência que estuda os acidentes, os seus nexos de causalidade e suas dinâmicas.  Mesmo após o acidente, quando os veículos deixam ou não marcas de frenagem e indícios de alta velocidade, é por meio de conceitos e fundamentos científicos que utilizam os cálculos exatos da Física para determinar as causas, calcular distância, velocidade, momento do impacto e outras características. É pela perícia (que nem sempre é feita em acidentes graves como esses) que, inclusive, se responsabiliza os envolvidos.  A velocidade é um fator fundamental: quanto maior a velocidade maior o impacto do acidente, mais lesões e maior gravidade. Com menos velocidade e mais atenção o motorista se antecipa aos riscos da via, percebe a possibilidade de acidente e toma as medidas cautelares para evitá-lo. Nessas condições, no máximo, ocorre um enrosco de para-choques e lesões de menor gravidade. Quanto menor a velocidade maior a sobrevivência.

Ao mesmo tempo em que os acidentes de trânsito acabam se “naturalizando” pela frequência e gravidade com que são provocados, a população se revolta porque sabe que algum conhecido ou familiar poderá ser a próxima vítima. Indignados, apelam para o senso comum e fazem as vezes dos técnicos ao apresentarem supostas soluções: “tem que colocar faixa elevada”; “tem que colocar lombada eletrônica”, tem que colocar isso ou aquilo. Mas, nada pode ser feito sem um estudo técnico do local.

Todo acidente de trânsito tem mais de uma causa envolvida e todas estão relacionadas ao homem (motoristas e pedestres), o veículo (estado de conservação, manutenção), a via (características geométricas, curvas, retas, subidas, descidas, cruzamentos, etc.) e o ambiente (dia da semana, festas, feriados e outros momentos em que existe o apelo para determinado comportamento e atitude no trânsito).

Não adianta se ter um serviço de estatísticas de trânsito que faça contas exatas se não se souber o que fazer com esses dados. Quais as ruas com mais acidentes? Quais os pontos críticos? Há mais de um acidente no mesmo local? Qual a gravidade? Qual a recorrência de mortos e feridos? Quais as características dessa via quanto à geometria, sinalização, o quanto interferem no comportamento das pessoas e no modo de se deslocarem? É para isso que servem as estatísticas: para direcionar os estudos técnicos e as tomadas de decisões para se tentar eliminar os problemas.

Características da via e de comportamento das pessoas

Aquele trecho da rua Amazonas entre o número 1.100 e 1.600 é chamado na Acidentologia de pontos negros da via. Pontos negros são locais de determinada via em que os acidentes de trânsito se repetem. No diagrama de análise dos especialistas em segurança no trânsito toda a via é mapeada com setas em cada um dos pontos negros. Mapeiam-se também os pontos brancos, que são os locais em que os acidentes de trânsito não são registrados na mesma via e depois comparam-se as características em comum: retas, curvas, subidas, descidas, elevações, inclinações, iluminação, pontos de visibilidade, velocidade regulamentada, vias secundárias, existência de comércios e outros lotes lindeiros, pontos de convergência, de divergência, dentre outros que possam permitir coletar o máximo de informações sobre esta via no todo.

É com base nisso que os técnicos e especialistas em trânsito, tráfego, sinalização viária e comportamento humano decidem quais as alterações necessitam ser feitas. Nada passa por cima dos aspectos técnicos que a população desconhece: nem o discurso inflamado de da comunidade ou de políticos (muitos aparecem para capitalizar politicamente nessas horas). As decisões são técnicas.

A rua Amazonas

A rua Amazonas tem pouco mais de 5km de extensão, é densamente habitada, povoada por muitos lotes lindeiros, casas, comércios e prestadores de serviços.  Do ponto de vista da engenharia da via, tem muita densidade, tráfego intenso, tem muitas curvas, algumas subidas, muitos pontos de inserção semafórica e retas estratégicas, pois são nesses locais em que os motoristas e motociclistas descuidam mais, relaxam mais nos cuidados, aceleram acima da velocidade regulamentada, desrespeitam as leis de trânsito e provocam os acidentes.

No entanto, se as imprudências estão nas mais de 4 mil ruas de toda a cidade, quais os fatores que potencializam mais acidentes e mortes no mesmo local na rua Amazonas? Isso, só um estudo técnico e comportamental dos usuários daquela via responderá. Estudos urgentes que levem em conta os fatores ligados ao homem, à via, ao veículo e ao ambiente. Há que se levar em conta os pontos negros de ocorrências e recorrências de acidentes, os pontos críticos, as condições da via, de sinalização no local e o comportamento dos demais usuários da rua Amazonas.

É necessário ouvir os moradores e comerciantes próximos, fazer a escuta atenta de seus relatos e testemunhos. É preciso lançar um olhar técnico e comprometido com todas essas ocorrências não só na rua Amazonas, mas nas demais vias da cidade. Nenhuma morte no trânsito é aceitável, ainda mais quando elas se repetem em questão de semanas no mesmo local.

O discurso uníssono de faixas elevadas cabe aos técnicos de tráfego e sinalização viária analisarem dentro de critérios extremamente técnicos. Para quem não sabe, a Secretaria de Planejamento tem duas pessoas só para atender telefonemas e pedidos de faixas elevadas na cidade. Já pensou se os critérios técnicos fossem desrespeitados e todos os pedidos atendidos?  A fluidez do trânsito estaria bem pior e as ruas elevadas acima do seu leito carroçável normal.

Texto: Márcia Pontes | Via: Especialista em trânsito de Blumenau
Por que tantos acidentes e mortes praticamente no mesmo local na rua Amazonas? Por que tantos acidentes e mortes praticamente no mesmo local na rua Amazonas? Reviewed by Por Wellington Civiero Ferreira on 26 novembro Rating: 5

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